Arquivo do mês: março 2011

MARANHÃO DEMOCRÁTICO

 

Raimundo Palhano

 

1 – PREÂMBULO

“Maranhão Democrático” era a primeira das 12 macro-diretrizes do novo plano de governo do candidato Jackson Lago, cujo mandato de governador foi interrompido em abril de 2009 por força de um golpe judicial.

Retomar o governo tendo como premissa essencial a democratização do estado e da sociedade maranhense, em todas as sua esferas, continua sendo uma conquista inadiável, mesmo se sabendo tratar-se de uma opção extremamente ousada, pois voltada ao enfrentamento do maior dos desafios políticos do Maranhão: reacender na população a crença em futuro melhor e a convicção de que o fundamento da política é a conquista do bem comum do povo.

Como agir, os que comandam um governo, para que a sociedade inclusiva volte a acreditar na sua força e na sua capacidade de romper todos os grilhões e amarras que, por anos a fio, comprometeram sua liberdade e os seus sonhos mais relevantes?

 

2 – RELEVÂNCIA TEMÁTICA

Enquanto obra da filosofia e da engenharia política, a democracia continua sendo a mais desafiadora das utopias humanas, mesmo na era atual, marcada pela quebra irreversível de paradigmas clássicos que explicavam a vida social e a dinâmica política.

Permanece atualíssima porque lida com uma das questões mais difíceis, que é justamente como tornar real as crenças democráticas que informam a idéia de justiça, equidade e bem comum do povo, pilares da idéia republicana.

A presença da democracia no contexto maranhense ainda representa uma aspiração distante. É um Estado brasileiro que está no extravio há muito tempo. O torrão maranhense padece de uma espécie de síndrome da decadência e do atraso, a ponto de ainda hoje continuar sob o manto de donatários, a despeito dos avanços materiais e da modernização induzida pelo movimento de expansão capitalista em seu território.

Não há como negar que a conquista da democracia representa praticamente a única saída para colocar o Maranhão na história, no mundo moderno, para desenvolver a sua economia em escala humana, colocar o povo como soberano e garantir um poder público capaz de satisfazer as aspirações e necessidades da população maranhense.

Ficará para a história do povo maranhense a experiência interrompida dos fóruns do governo com a sociedade civil e movimentos sociais, durante o período Jackson Lago. Em tais ocasiões, o comandante do executivo, completamente despojado de seus aparatos institucionais, se colocava como parceiro dos movimentos sociais das várias regiões maranhenses para diagnosticarem e programarem ações voltadas à melhoria das condições e da qualidade de vida do povo.

O tralho realizado pela Secretaria de Planejamento e Orçamento na direção da remodelagem da gestão pública estadual, baseada em uma nova regionalização territorial e na descentralização administrativa, colocava o cidadão e a cidadã como sujeitos de direitos e com capacidade de decidir sobre os destinos do seu município e de sua região.

Processos como estes, altamente revolucionários em relação às formas tradicionais de gestão pública, quebrariam, em pouco tempo, as bases de sustentação do sistema oligárquico tradicional, pois as novas institucionalidades resgatariam a soberania popular e colocariam o povo no poder e com isso certamente contribuiriam para a dissolução dos currais eleitorais e de todas as formas atrasada de dominação política local.

 

 

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DUAS DATAS HISTÓRICAS

Raimundo Palhano[1]

(Pronunciamento feito em solenidade do Corecon-Ma, em agosto de 2001)

O Conselho Regional de Economia do Maranhão, em boa hora e fazendo coro aos demais congêneres de todo o país, elege o cinqüentenário da Lei 1.411, de 13 de agosto de 1951, que rege a profissão de economista no Brasil, como tema central de sua tradicional Semana do Economista, evento que realiza anualmente para marcar a data dedicada à categoria profissional. No caso do Conselho maranhense, agrega-se outra efeméride de grande valor histórico: os 36 anos de ensino da ciência econômica no Estado.

Waldemar da Silva Carvalho, fundador e primeiro diretor da antiga Faculdade de Ciências Econômicas, passou sete anos lutando para ver o seu sonho se concretizar. Nascida em 1958, na Escola Técnica de Comércio do Maranhão, a partir de uma reforma estatutária empreendida por ele, seu então diretor, o aludido estabelecimento de ensino superior só viria a ser autorizado pelo Presidente da República em  1965, pelo Decreto Federal 55.895, de 02 de abril daquele ano.

Sua instalação foi imediata. Em 18 de abril daquele ano, representando o corpo docente, Roberto de Sousa Cunha, em memorável discurso, sintetizava o sentimento de realização e orgulho dos patronos e destacava a importância do curso para o desenvolvimento maranhense. Em 10 de maio teve lugar a aula inaugural e em seguida iniciava-se a jornada dos 40 primeiros estudantes selecionados, habilitados dentre os 63 que se inscreveram.

Por que tanto tempo para criar uma Faculdade, cujo sentido de utilidade para um estado atrasado como o Maranhão era tão óbvio? Dois grandes obstáculos se antepuseram: o Conselho Federal de Educação exigia que se comprovasse a existência de condições financeiras por parte da mantenedora e que o corpo docente fosse habilitado para o exercício daquele magistério específico, uma vez que os professores indicados eram em maioria constituídos de advogados, engenheiros e de outras profissões.

Para ultrapassar o primeiro obstáculo foi preciso demonstrar a higidez financeira da mantenedora, reavaliando-se o valor de seus bens imóveis, e obter da Assembléia Legislativa um projeto de lei concedendo auxílio pecuniário permanente à nova Faculdade. Tais eventos só se concretizariam em 1961, o que possibilitou a aprovação do seu Regimento Interno pela Câmara de Ensino Superior do Conselho Federal de Educação.

A condição para superar o segundo obstáculo vinculava-se à realização de um Curso de Especialização em Análise Econômica para os professores indicados, o que só viria a acontecer em 1963, tendo sido imprescindíveis os apoios dados a Waldemar Carvalho pelo empresário Haroldo Correia Cavalcanti, então presidente da Confederação das Indústrias e pelo professor Manoel Orlando Ferreira, perito do Ministério da Educação e Cultura, que viria a ser o coordenador do curso, cujo financiamento deveu-se ao SESI, graças ao apoio do aludido líder empresarial maranhense.

O Curso de Análise Econômica durou nove meses, iniciando-se em 16 de julho de 1963 e terminando em 16 de abril de 1964. Os treze professores aprovados e diplomados em 19 de setembro daquele ano formariam a base do primeiro corpo docente da Faculdade e muitos deles passariam a ter a difícil missão de instituir em nosso torrão as bases teóricas, históricas e operacionais da nova profissão. Eram eles: Ezelberto Martins, José da Costa Mendes Pereira, José Joaquim da Serra Costa, José Mário Santos, Manoel da Vera Cruz Pinto Ribeiro, Nyvaldo Guimarães Macieira, Otaciano Rego Junior, Palmira Correia Moreira Lima, Pompílio de Albuquerque, Raymundo Nonato Castro, Roberto Sousa Cunha, Rosa Mochel Martins e Severa Cutrim Ferreira.

A autorização de funcionamento da Faculdade, em 1965, não encerraria a luta de Waldemar Carvalho pela sua plena institucionalização. Ainda teve que travar, por mais três anos, a refrega pela incorporação daquele estabelecimento de ensino à Fundação Universidade do Maranhão, instituída em 21 de outubro de 1966. Incorporada em 1967 e logo depois desincorporada, a Faculdade só viria efetivamente a ser incorporada em 1968, pelo Decreto 62.492, de 1o de abril do referido ano.

Além da dedicação e abnegação de seu fundador e primeiro diretor e da contribuição dos personagens já mencionados, a institucionalização da Faculdade de Ciências Econômicas do Maranhão passou pelas mãos de personalidades acadêmicas, do mundo político e da esfera governamental, destacando-se os professores Antonio Carlos Moreira Marques, Jurandí Lodi, Durmeval Trigueiro Mendes; Hiay Leal, presidente da Junta Governativa do SESI e paraninfo do Curso de Análise Econômica, Dr. Salomão Fiquene, Dr. Armando Mendes, então presidente do BASA, deputado federal Américo de Souza, Josué Montello e de José Sarney, governador do Maranhão, entre tantos outros que o espaço não comporta registrar.

Fora deste círculo de autoridades, duas menções precisam ser consignadas nesta pequena memória: uma, vinculada  à figura do estudante José Mário Ribeiro da Costa, que muito contribuiu com sua energia e vibrante oratória para tornar irreversível aquele empreendimento, do qual viria mais tarde a ser professor;  e outra, ligada à doce e terna Maria do Socorro Bittencourt, a querida Dona Florzinha, que, desde o Curso de Análise Econômica, organizara e dirigia com talento e competência a Secretaria da Faculdade, tendo sido, para professores, alunos e funcionários da instituição, durante anos, uma fonte  permanente de equilíbrio e dedicação.

Os cinqüenta anos da Lei que rege a profissão de economista no Brasil também realçam o papel singular de outra instituição fundamental para a construção da identidade desta categoria profissional: trata-se dos Conselhos Federal e Regionais de Economia, criados a partir de 1952.

Os economistas maranhenses já estiveram sob a jurisdição de Pernambuco, de 1952 a 1963 e do Ceará, de 1964 a 1976, quando ainda eram chamados de Conselhos Regionais de Economistas Profissionais, CREP, nos casos, os da 3a e 8a Regiões, respectivamente.

O Conselho Regional de Economia do Maranhão foi criado em 9 de dezembro de 1971, pela Resolução 561, mas só conseguiu sua instalação em 13 de fevereiro de 1976, onze anos após o funcionamento da Faculdade de Ciências Econômicas. Levou portanto cinco anos para conseguir ultrapassar as barreiras impostas pelos dispositivos legais  à sua instalação, representadas pela comprovação de sua viabilidade material e financeira e pela existência de competência administrativa e técnica para o pleno exercício de suas atribuições.

O ano de 1973 marca o início das gestões em favor da instalação do Conselho maranhense, cinco anos após a formatura da primeira turma de economistas da Faculdade de Ciências Econômicas do Maranhão. A Comissão de Trabalho designada para tal fim era constituída pelos seguintes economistas: Arlindo Raposo, Lino Moreira, Maurício Rego, Samuel Mello, Josemar Raposo, Alim Maluf, Milton Freitas, Gilman Ferreira e Samuel Dória de Carvalho.

Movimentando-se ao máximo, a Comissão chega ao governador Pedro Neiva de Santana, que oficia ao Ministério do Trabalho em favor do pleito, de onde são informados da necessidade de efetivação de duas condições prévias: primeiramente, a criação de uma Associação Profissional e, em seguida, a instalação de uma Delegacia do CREP da 8a Região, à qual o Maranhão permanecia jurisdicionado.

Em pouco mais de dois anos as duas pré-condições foram satisfeitas, inicialmente com a criação da Associação, que teve como primeiros presidente e vice eleitos os economistas Arlindo Raposo e Raimundo Palhano e, em seguida, a instalação da Delegacia do CREP da 8a Região, cujo cargo de delegado foi pelo autor deste texto ocupado. Além de Arlindo Raposo, os economistas José Ribamar da Silva Campos e José Maria Pereira, que presidiu a segunda diretoria da Associação, foram baluartes na luta pela instalação do Conselho Regional de Economia do Maranhão. Merece destaque também os apoios decisivos, no ano de 1975, do deputado Jackson Lago, que oficia ao Conselho Federal de Economia em favor do pleito e do conselheiro federal, representante do Rio Grande do Sul, Osmar Danilo Don Braga, que abraçou firmemente a causa dos economistas maranhenses.

Chega 1976 e com ele a instalação, penosa e demorada, do Conselho Regional de Economia da 15a Região-Maranhão, simbolizando um marco na trajetória histórica dos economistas desta terra. De sua primeira diretoria fizeram parte: como presidente e vice José Ribamar Campos e Raimundo Palhano; como conselheiros titulares, os economistas José Augusto dos Reis, Jerônimo Leite, Alim Rachid, José Ribeiro da Silva Filho, José Ribamar Reis, Arlindo Raposo e José Maria Pereira, e, como conselheiros suplentes, Maria José Ribamar Silva, José Henrique Polary, Valmir Seguins Araújo, Augusto Bento Serra, Waldeli Santos, Raimundo Arthuro, Tibério Mariano Martins, Joaquim Anglada e Manoel Salgado.

Com toda certeza, esta pequena memória é fragmentária e se reporta a um momento datado da trajetória dos economistas maranhenses. O saldo dos cinqüenta anos de reconhecimento da profissão no Brasil e os trinta e seis de ensino da ciência econômica no Maranhão são infinitamente maiores e, muito mais complexas ainda, as análises de suas evoluções. O texto deve ser visto sobretudo como um pequeno registro sobre as origens de duas instituições que foram indispensáveis na vida dos economistas maranhenses.

Qual o balanço possível dos cinqüenta anos de institucionalização da profissão de economista em nosso país? Como tudo na vida, há um lado positivo, que deve ser brindado; mas há um outro, que não nos deixa usufruir a felicidade completa, que diz respeito à nossa incapacidade de oferecer soluções que superem as muitas misérias e pobrezas espalhadas por esse país afora.

Em menos de cinqüenta anos os economistas brasileiros ajudaram a erigir a economia de uma nação que deixou de ser o 48o PIB do mundo, um país periférico no cenário internacional, que exportava pouco mais de 1 bilhão de dólares, onde o café representava 50% do total; passando a figurar, nos dias de hoje, entre as dez maiores economias do mundo. Um país que atingiu médias de crescimento anuais em todo o século XX só superáveis pela China. Um país que produziu economistas geniais como Caio Prado Junior, Octávio Gouveia de Bulhões, Eugênio Gudin, Ignácio de Mourão Rangel, Celso Furtado, Mário Henrique Simonsen, Conceição Tavares, e tantos outros de igual valor. É esse o lado bom da história.

Mas ainda há um lado nebuloso, sombrio, que nos impede de uma comemoração plena. Falo do Brasil das desigualdades sociais e regionais, da concentração de renda, do desemprego, das dívidas interna e externa, da crise energética, das altas taxas de juros, da subordinação ao neoliberalismo e muitos outros problemas que colocam os economistas brasileiros em posição de descrédito junto à sociedade.

Nesses cinqüenta anos de regulamentação profissional passamos da condição de seres providenciais, pois era crença geral que a solução dos problemas brasileiros dependia dos economistas; para uma outra, a atual, em que o desencanto é geral. Por tudo isso, o maior desafio dos economistas brasileiros, para os próximos anos, é, indubitavelmente, contribuir para o tão sonhado reencantar da economia nacional.


[1] Conselheiro fundador e ex-Presidente do CONSELHO REGIONAL DE ECONOMIA-CORECON-MA 15a Região

 

TEMPOS DE INTERACT

por Raimundo Palhano

 

Entre 1965 e 1966 participei ativamente do movimento interactiano no Maranhão e em todo Distrito 449, então o maior distrito rotário do mundo, pois abrangia a Região Amazônica e os Estados do Maranhão, Piauí e Ceará. Fui, inicialmente, presidente do Interact Club do Colégio Maranhense, dos Irmãos Maristas, vinculado ao Rotary Club da Praia Grande, o que me levou a ser eleito, na I Conferência Distrital de Interact Clubs, o primeiro Governador Distrital de Interact do D-449, e transformar-me, por esse motivo, no segundo Governador de Interact do país ( o primeiro foi o Presidente do Interact de Londrina, no Paraná ), integrar o grupo dos quatro primeiros Governadores de Interact da América do Sul e a pertencer, juntamente com mais vinte e oito jovens, de doze países, incluindo o Brasil, ao Conselho Mundial de Governadores de Interact.

Lideravam as ações rotárias naquele tempo e apoiavam o movimento interactiano nomes singulares como Luiz Rego, Ronald Carvalho, Ruy Abreu, Antonio Moraes Correia, José da Costa Oliveira, Luiz Augusto Rego, Sebastião Caracas, Carlos Vasconcelos, Antonio Hadad e muitos outros, destacando-se, entre todos, o empresário Almyr Moraes Correia, sem dúvida, um dos mais lúcidos e exponenciais empreendedores de sua geração e  verdadeiro devoto à causa da juventude.

Ao que estou informado, a criação de Interact Clubes pelo Rotary International ocorreu em 1962. Em 1966, quando me desligo do movimento para concluir o Científico no Rio de Janeiro, existiam 1.500 clubes e 23.000 interactianos espalhados em cinqüenta países. Olhando o passado, numa fase em que a internet ainda era ficção, chama a atenção a existência, à época, de uma verdadeira rede de comunicação entre os interactianos dos vários continentes, talvez explicável pelo prazer que tínhamos em estabelecer relações de amizade e propagar o que cada um estava fazendo para o bem de sua comunidade, em especial pelos pobres e despossuídos. Não estou seguro, por outro lado, se o Interact Club do Colégio Maranhense, provavelmente criado em 1965, foi o primeiro do Maranhão ou se tal prerrogativa pertence ao Interact Club do ex- Colégio São Luís ou mesmo à antiga Escola Técnica Federal. Todavia, o Interact dos Maristas, sediado no Colégio mais respeitado da Capital e celeiro de educadores renomados, como Raimundo Medeiros Lobato, Ivo Anselmo Hohn, Kalil Mohana, entre tantos outros, teve a sorte de assumir a liderança do movimento no Maranhão e em todo o Distrito graças, principalmente, aos sonhos de meninos inigualáveis, como Miguel Damous, Miécio Jorge Filho, Avelino Farias, João Ferreira da Silva Filho, Adalberto Gonçalves, Luís Raimundo Leal Mesquita, Carlos Nina, Manoel Farias, Carlos Tadeu Palácio, João Martins Boueres, Fernando Caldas, Francisco Siqueira Junior, e tantos outros, que viriam a se tornar, mais tarde, em atores sociais e homens públicos de plena visibilidade no Maranhão e alguns até mesmo no país.

Com cerca de dezoito anos, tendo tido o privilégio de experimentar os dourados anos da década dos cinqüenta, mesmo sem entender muito tudo aquilo,  vivia, no ano de 1966, minha primeira culminância: – Governador do Interact, Presidente do Grêmio Cultural Coelho Neto, do Colégio Marista, Vencedor do Prêmio Literário-Estudantil da Editora “El Ateneo” e autor de uma peça teatral – “Três Mortes Diferentes” – encenada no Auditório Marcelino Champagnat… Olhando o passado, mais uma vez, não tenho dúvida que, dentre todas aquelas “glórias”, a experiência interactiana foi uma das melhores. Ela, mais que qualquer outra, me revelava o mundo e me descortinava horizontes. Como esquecer as coisas boas que inventávamos e fazíamos? Os discursos grandiloquentes, as promessas de mudar a sociedade, os atos de heroísmo e de solidariedade humana? Como esquecer a emoção de ver acontecimentos nossos impressos em idiomas como o inglês, o francês ou o espanhol e de saber que, em outros países e continentes, existiam jovens engajados no movimento e interessados em intercambiar e trocar experiências em prol do companheirismo internacional e que acreditavam, como nós interactianos maranhenses, no ideal de servir ao próximo e à comunidade como princípios basilares? Como é prazeroso recordar as muitas viagens que fizemos a cidades como Caxias, Teresina, Parnaíba, Sobral, Fortaleza e Belém, por exemplo, para fundar novos Interact, apoiar outros, realizar eventos, como a II Conferência Distrital de Belém, em 1966, quando me despedi da Governadoria, recebendo generosos aplausos de todos? Como não lembrar dos programas radiofônicos semanais que tínhamos, o primeiro na Rádio Difusora, às 17:30 horas, cujo ponto culminante era a “Crônica do Estudante Moderno”, escrita e apresentada por Manoel Farias, ou o outro, na Rádio Educadora, também semanal, viabilizado pelo sacerdote-rotariano Monsenhor Ladislau Papp, intitulado “Interação”, cujo cronista principal era o aguerrido Carlos Sebastião da Silva Nina?

Ao concluir esse pequeno exercício de memória não hesito em afirmar que o Interact foi uma das minhas primeiras escolas de vivências humanas e de formação política, e, com certeza, de todos os companheiros de agremiação, na medida em que sua preocupação maior era deixar impregnado em nosso caráter uma marca ética, traço este que se deveu, sobretudo, à influência intelectual exercida por Almyr Moraes Correia como inspirador, apoiador e ideólogo do interactianismo em nosso meio. Ali aprendíamos e exercitávamos o ideal de servir à comunidade, a interagir, pois “interact” quer dizer interação, o companheirismo internacional, o significado da participação social, o trabalho pela paz mundial e, sobretudo, a defesa da liberdade. O mais importante de tudo, e contraditório também, é que era um dos únicos movimentos “consentidos”, abertos aos jovens, pois se vivia em pleno processo de consolidação de um regime político ditatorial em que, por exemplo,  o movimento estudantil e seus órgãos de representação cada vez mais só podiam agir na clandestinidade. Entendo que, no que fazíamos, mesmo consentidamente, havia algo renascendo das cinzas, ou mesmo do próprio fogo em chamas, a anunciar que a liberdade não pode morrer, nunca. No Interact, no jornal “Força Estudantil” do nosso Grêmio escolar, na peça “Três Mortes Diferentes”, no prêmio literário da “El Ateneo”, nas crônicas das rádios e na nossa ação cotidiana, em tempos de chumbo como eram aqueles, para todos nós daquela geração, ainda meninos calçudos, havia uma expressão de Paul Claudel que nos guiava sempre: “a juventude não é para o prazer, mas para o heroísmo”. Bons tempos, aqueles!

 

ENTREVISTA

Entrevista com Raimundo Palhano para o Jornal do Economista do Corecon-MA, respondida por e-mail em 31.01.2010.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Como economista, qual é a sua visão do Brasil de hoje?

Vejo o Brasil como um país dotado de enormes potencialidades para se tornar um líder regional e internacional nos próximos anos, já visíveis hoje, graças ao carisma pessoal do Presidente Lula e aos acertos das políticas macroeconômica e de desenvolvimento social. Claro que o país reúne um volume grande de desafios, principalmente relacionados ao enfrentamento da pobreza, do atraso político, da crise institucional e das questões das desigualdades sociais.  A elite política que dirige o país, em sua grande maioria, alojada nos três poderes, está muito aquém das necessidades e expectativas da nação. As nossas instituições públicas e governamentais não funcionam corretamente, e muitas estão defasadas, decadentes e até mesmo apodrecidas. O futuro do país depende da superação desses obstáculos estruturais. Apesar das crises internas e dos erros da política e dos políticos, que substituíram a busca do bem comum do povo pelo bem “incomum” de suas riquezas patrimoniais, julgo que o povo brasileiro vencerá essa batalha, sobretudo porque não há mais hegemonia cultural e política no mundo em que vivemos. Somos claramente uma cultura peculiar, vista inclusive, por setores da cultura européia, como portadora de um mundo alternativo, humanizado e criativo. Por sermos um povo experimental e a nossa cultura híbrida e caleidoscópica, isso contará muito na nova ordem mundial que está sendo gestada.

Podemos acreditar que as estratégias e políticas econômicas adotadas nos últimos anos vão alavancar de fato o desenvolvimento do país, com a superação dos indicadores negativos?

Precisam continuar evoluindo para melhor. A estratégia para isso resume-se em combinar crescimento econômico geral com a dinamização das economias regionais e locais, sendo, ao mesmo tempo, capazes de assegurar uma maior equidade social. O traço mais característico do desenvolvimento econômico brasileiro é a produção de assimetrias no tecido social. A economia cresce e os benefícios não chegam ou não fortalecem a qualidade de vida de grandes parcelas da população. Só agora temos uma política social que está influindo na melhoria da distribuição de renda para os pobres, resumida nos efeitos do programa Bolsa Família. Para superarmos os indicadores negativos do país precisamos desenvolver a Amazônia, o Nordeste, as periferias dos centros urbanos. Ao lado de políticas públicas verdadeiramente eficazes, sobretudo na criação de infra-estruturas básicas, econômicas e sociais, lastreadas em uma política educacional de qualidade efetiva para as camadas populares de todas as regiões do território nacional. Faltam-nos, além disso, estratégias inteligentes de desenvolvimento de médio e longo prazo, que nos levem a níveis cada vez maiores de equilíbrio e sustentabilidade econômica e política. Há muita fragilidade no planejamento estratégico estatal, sobretudo em termos de estratégias para o país assumir a condição de “player” internacional. Enquanto não superarmos essas limitações, a governança se fará misturando-se elementos do paroquialismo provinciano com elementos de uma modernização de fachada, benéfica a bem poucos e altamente prejudicial à grande maioria da população brasileira que necessita ampliar suas oportunidades de trabalho, emprego e renda.

E quanto ao Maranhão, que agenda o Estado deve cumprir neste momento para garantir um desenvolvimento includente e sustentável para suas atuais e futuras gerações?

O maior desafio para o desenvolvimento do Maranhão é superar o atraso político e o descompromisso público de boa parte das elites que comandam o Estado. O poder político aqui tem características únicas.  Predomina a mais forte das oligarquias brasileiras, cujo enraizamento e fortalecimento vêm de décadas. Sua força é tamanha que a governabilidade nacional dela não pode prescindir. Nossa história é feita de negações e apropriações indébitas, em especial dos direitos humanos, de cidadania e do erário público. Por mais hábil e inteligente que seja a engenharia política oligárquica, é impossível garantir o desenvolvimento includente e sustentável para as atuais e futuras gerações nos marcos e na lógica desse sistema oligárquico. A saída passa por uma reforma radical e profunda da política estadual e dos métodos tradicionais utilizados pelos que dirigem o Estado. O segundo maior desafio maranhense é desenvolver suas várias economias. Somos um Estado no qual os municípios praticamente não têm economias próprias e estão resignados com essa condição. Dependem quase inteiramente das transferências da união e pouco fazem (seja por conveniência política, descompromisso, nível cultural ou incapacidade técnica) para romper esse círculo vicioso. O poder oligárquico incutiu na cabeça do maranhense que desenvolvimento só é possível com fartos estímulos aos grandes projetos nacionais e internacionais que aqui se instalam, principalmente em razão das vantagens infraestruturais, sobretudo viárias, portuárias e das benesses fiscais. Relegaram a um segundo plano, e até agem com desprezo, quando o assunto é o desenvolvimento endógeno das forças produtivas locais e municipais. O preço pago por esse olhar estrábico é um PIB per capita dos menores e dos mais baixos do país. Esse poder jamais conseguiu promover o desenvolvimento equitativo e sustentável. Pelo contrário. Reforçou a tendência histórica de crescimento econômico concentrado e centralizado. A saída passa pelo fortalecimento da democracia e dos governos locais e pela dinamização das economias dos territórios municipais, numa perspectiva de evolução das cadeias produtivas e da infra-estrutura básica, no que gerarão oportunidades para o desenvolvimento das micro e pequenas empresas sediadas ali. O Maranhão, no século XIX, chegou a ser uma das mais importantes províncias do Brasil, tendo sua capital como a 4ª mais importante, só perdendo para Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Por ter uma elite com mentalidade alienada, atrasada e sem projeto cultural próprio, acreditava que a saída estava no transplante da cultura metropolitana européia. É fácil compreender porque chegamos cedo à estagnação e à decadência. A efetividade de uma agenda estratégica para o desenvolvimento sustentável do Maranhão, de forma resumida, dependerá do investimento em uma nova cultura de mudança, prioritariamente voltada às gerações mais jovens; da desconstrução dos fundamentos da lógica articulante do poder oligárquico tradicional; da reinvenção do planejamento público estatal, hoje incapaz de planejar o desenvolvimento sustentável por se manter atrelado aos interesses políticos imediatos do poder executivo; e da dinamização das economias endógenas, que pouco conseguem agregar valor aos seus produtos, vítimas que são da política ciclópica e equivocada de valorização extrema dos grandes projetos mínero-metalúrgicos e do agronegócio. Tão importantes quanto os grandes projetos do novo ciclo de investimentos, a começar pela futura Refinaria Premium, serão os projetos que elevem a capacidade de agregação de valores aos bens e serviços produzidos pela economia endógena, a começar pela dinamização das economias dos povoados, vilarejos e distritos.

Na sua avaliação, como tem sido o aproveitamento do conhecimento técnico do economista nos debates, planejamento e formulação das políticas no país?

No plano nacional os economistas sempre tiveram um peso muito grande em matéria de estratégias para o desenvolvimento brasileiro, além de forte presença no planejamento e na gestão governamental. Predominam as correntes conservadoras e liberais, sempre vinculadas aos centros hegemônicos do capitalismo internacional. Produzimos também um pensamento econômico mais à esquerda e nacionalista que, em determinadas conjunturas, tiveram peso relativo. Além disso, o pensamento econômico brasileiro tem prestígio na América Latina e mesmo no mundo, graças a alguns centros de formação localizados principalmente no centro-sul brasileiro, com destaque para as instituições localizadas nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Onde o economista, enquanto profissional de formação humanística, encontraria melhor campo de realização profissional- no setor público, na área empresarial ou no chamado terceiro setor?

Tenho dúvidas se as nossas escolas de economia primam verdadeiramente pela formação humanística desses profissionais. Penso que em sua grande maioria constroem na cabeça dos formandos a idéia de que se trata de uma ciência exata. A permanência dessa perspectiva tem contribuído para a atual crise de identidade da carreira. Confunde-se ciência com ideologia e muitos cursos acabam se transformando em aparelhos ideológicos descontextualizados. Concordo com Fábio Comparato quando diz que a economia, como o direito e a política, é uma sabedoria de decisões. É uma tomada de decisões que requer sabedoria técnica, científica e vivência cultural. Minha experiência pessoal até agora foi no setor público e no terceiro setor. Ambos são fascinantes como campos de atuação do economista. Para se sair bem em qualquer das três áreas é preciso competência, criatividade e estar aberto aos desafios de uma sociedade em mutação. E ficar de olho nas oportunidades que surgirem.

E a formação dos novos economistas têm acompanhado as exigências da realidade brasileira?

Ultimamente não tenho acompanhado de perto essa questão. Durante o longo período em que estive inserido, eram poucos os centros de formação de economistas que focavam seus conteúdos curriculares e programas correspondentes na realidade do país, das regiões e dos Estados. Em sua maioria os cursos estavam pautados em correntes teóricas, metodológicas e  de pensamento referidas aos países centrais do capitalismo hegemônico. Aqui está outro fator que explica a crise de identidade da carreira. Estudava-se muita teoria, fazia-se da cátedra um púlpito ideológico para veicular duvidosas verdades e quase nada de prático e experimental era vivenciado. O resultado de tudo isso era uma profissional de precária formação intelectual própria, com baixíssimos níveis de contato com a realidade onde estava inserido, além de sair quase despojado das ferramentas mínimas para o exercício profissional no mercado de trabalho. Pelo que tenho visto, acho que esse quadro não mudou muito, com as devidas exceções. Em nosso Estado percebo isso com muita nitidez. Claro que temos professores e professoras talentosos e competentes em bom número, todavia parece que não conseguem ultrapassar esse viés histórico. Ainda hoje muitos economistas explicam a realidade maranhense a partir de supostos “modelos” assépticos e acreditam numa bobagem metodológica chamada “ceteris paribus”, que explica os fenômenos econômicos isoladamente, sem considerar os efeitos dos outros fatores sociais.

Qual a sua recomendação aos jovens economistas para que possam ser bem sucedidos profissionalmente?

Colocar a ética acima dos interesses particulares e dos vínculos políticos e se colocar na sociedade como um cidadão comprometido com o bem comum do povo. O passo seguinte é não negligenciar jamais o seu aperfeiçoamento técnico, científico e cultural. Mediocridade não combina com o exercício da profissão de economista. Para isso é preciso se colocar como um eterno aprendiz.

Por fim, uma opinião sobre a importância do CORECON-MA.

Orgulho-me de ter sido um dos fundadores do Conselho. Uma fase de minha vida foi dedicada a este movimento, do qual tenho gratíssimas recordações. Na gestão de Raimundo Rocha Junior recebi inclusive o honroso título de Economista do Ano. Reconheço em Dilma Pinheiro uma dirigente de valor, ativa e realizadora. Cursino e seu grupo são quadros importantes. Reúne assim todas as condições intelectuais e materiais para contribuir no enfrentamento da encruzilhada histórica em que o Maranhão se encontra. O Conselho será mais importante ainda se se fizer mais presente no enfrentamento dos desafios do desenvolvimento econômico  maranhense. O Corecon, juntamente com as escolas de economia, têm o dever ético, cívico e intelectual de fomentar uma cosmovisão dos problemas maranhenses que supere o lugar das explicações consagradas, plenamente utilizadas pelas camadas dirigentes do Estado ontem e hoje, ou mesmo “amanhã” (se cruzarmos os braços), em favor da continuidade dos seus projetos de dominação política. E preciso confrontar a razão patrimonialista que emana dessas camadas e que mantêm o Maranhão prisioneiro de uma ficção histórica e política. Se não nos unirmos nessa direção vamos continuar assistindo de camarote a ópera bufa que nos ilude por décadas. Agindo assim poderemos contribuir para tornar mais efetivo o controle social sobre o Estado e suas políticas públicas. Era essa a visão que tínhamos, há trinta anos atrás, nós do movimento de renovação dos economistas, para justificarmos a existência de um Conselho de Economia para o Maranhão. Visão esta que certamente não foi esquecido pelos atuais dirigentes do Conselho.

 

ESSENCIAL

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 3)

O leito da terra é o lugar essencial.
É lá que está a perfeição das coisas.
Em um lugar perdido do centro da terra,
de acesso difícil,
entre rochas ásperas e duras.

É lá que se encontra a pureza dos seres.
É lá que habitarei,
protegido dos mísseis,
das guerras hediondas,
da hecatombe.
Do próximo apocalipse.
É lá,
nesse lugar desconfortável,
perdido,
do centro da terra que me rencontrarei.

O SOPRO

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 2)

O vento caminha forte,
buscando suavisar tempestades impacientes,
soprando velas de aniversário
e nenhuma pedra se movendo,
e nenhum osso se mexendo,
só as células vertebradas do ar.
Células do ar que apenas vi de passagem,
formando esqueletos peculiares,
uma outra humanidade,
entre lembranças e esperanças,
passadas a limpo por quase nada.
Como se fosse possível
estimar o valor de pedras se movendo,
ou do vento se esforçando,
persistindo em suavisar minhas noites.

RESISTÊNCIA

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 6)

Há uma tristeza no ar,
uma dureza, aspereza, no ar.
Muita gente conformada com os disformes da vida.
O momento sem movimento,
sem nada nas veias escarlates,
nessa sinfonia sepultada.
Haverá a memória da história
e daqueles que te ouviram e amaram?
Teus brados de alerta. Vermelhos. Inês.
Em que lugar da terra ainda consegues dormir?

VIDAS

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 5)

Quase onze horas de mais um domingo.
Da janela do cômodo vejo um conjunto de casas,
uma ciranda de telhados,
que parecem muito unidos e calmos. Apesar do sol intenso.
Mais além dos telhados vislumbro a linha das águas do
Bacanga,
que de longe soam paradas,
mas que,
na verdade,
estão deslizando em correnteza,
indo com muita pressa.
A despeito do silêncio, há vida.
Há vida.
O sol começa a brilhar mais.
Noto que há muita gente na rua. Ouço passadas e passados.
O vento pousa silenciosamente sobre as árvores, lá fora.
Ouço também o latido dos cães,
que não perturbam alguns pombos, que se beijam no telhado.
As nuvens do alto parecem observar, em silêncio, essas vidas.
Eu tento, antes de fechar a janela .

INTROSPECÇÃO

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 1)


Em volta tudo permanece sombrio,
amputação de meu verbo,
o verso que não se emancipa,
no artificial mundo parido,
mundo criado,
na introspecção avulsa dos outros,
redundantes seres gerados.
Em volta tudo continua triste:
o fígado,
a costela vermelha,
o coração,
a sombra arbórea,
como o meu pensamento que se perdeu.
Tento inutilmente encontrar a consciência de minha alma,
faço incursões perigosas em minhas próprias entranhas
e concluo que a viagem pode acabar sem meu consentimento.

EM SILÊNCIO

Raimundo Palhano
(relatório de viagem 4)

Fito as estradas reais e imaginárias.
O tempo transcorrido e os suores derramados.
Lembro sorrisos e lágrimas.
Amores e falta deles.
Solidões caudalosas como rios apressados.
Segredos guardados dentro de mim, inconfessáveis.
Angústias e tormentos.
Dúvidas atrozes.
Em silêncio fico sem saber o começo e o fim.
Por onde tudo acaba ou acabará.
Por onde começar a resolver os problemas do mundo,
antes de conhecer os meus próprios.
E minha alma se apavora
ante o volume da gota d’água,
os gases dos canos de descarga,
a decadência social que não consegue explicar.
Permaneço em silêncio,
exausto, atento, perplexo.
Cansado da viagem.
Sem saber se ainda há tempo para prosseguir.
Para onde?