ENTREVISTA

Entrevista com Raimundo Palhano para o Jornal do Economista do Corecon-MA, respondida por e-mail em 31.01.2010.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Como economista, qual é a sua visão do Brasil de hoje?

Vejo o Brasil como um país dotado de enormes potencialidades para se tornar um líder regional e internacional nos próximos anos, já visíveis hoje, graças ao carisma pessoal do Presidente Lula e aos acertos das políticas macroeconômica e de desenvolvimento social. Claro que o país reúne um volume grande de desafios, principalmente relacionados ao enfrentamento da pobreza, do atraso político, da crise institucional e das questões das desigualdades sociais.  A elite política que dirige o país, em sua grande maioria, alojada nos três poderes, está muito aquém das necessidades e expectativas da nação. As nossas instituições públicas e governamentais não funcionam corretamente, e muitas estão defasadas, decadentes e até mesmo apodrecidas. O futuro do país depende da superação desses obstáculos estruturais. Apesar das crises internas e dos erros da política e dos políticos, que substituíram a busca do bem comum do povo pelo bem “incomum” de suas riquezas patrimoniais, julgo que o povo brasileiro vencerá essa batalha, sobretudo porque não há mais hegemonia cultural e política no mundo em que vivemos. Somos claramente uma cultura peculiar, vista inclusive, por setores da cultura européia, como portadora de um mundo alternativo, humanizado e criativo. Por sermos um povo experimental e a nossa cultura híbrida e caleidoscópica, isso contará muito na nova ordem mundial que está sendo gestada.

Podemos acreditar que as estratégias e políticas econômicas adotadas nos últimos anos vão alavancar de fato o desenvolvimento do país, com a superação dos indicadores negativos?

Precisam continuar evoluindo para melhor. A estratégia para isso resume-se em combinar crescimento econômico geral com a dinamização das economias regionais e locais, sendo, ao mesmo tempo, capazes de assegurar uma maior equidade social. O traço mais característico do desenvolvimento econômico brasileiro é a produção de assimetrias no tecido social. A economia cresce e os benefícios não chegam ou não fortalecem a qualidade de vida de grandes parcelas da população. Só agora temos uma política social que está influindo na melhoria da distribuição de renda para os pobres, resumida nos efeitos do programa Bolsa Família. Para superarmos os indicadores negativos do país precisamos desenvolver a Amazônia, o Nordeste, as periferias dos centros urbanos. Ao lado de políticas públicas verdadeiramente eficazes, sobretudo na criação de infra-estruturas básicas, econômicas e sociais, lastreadas em uma política educacional de qualidade efetiva para as camadas populares de todas as regiões do território nacional. Faltam-nos, além disso, estratégias inteligentes de desenvolvimento de médio e longo prazo, que nos levem a níveis cada vez maiores de equilíbrio e sustentabilidade econômica e política. Há muita fragilidade no planejamento estratégico estatal, sobretudo em termos de estratégias para o país assumir a condição de “player” internacional. Enquanto não superarmos essas limitações, a governança se fará misturando-se elementos do paroquialismo provinciano com elementos de uma modernização de fachada, benéfica a bem poucos e altamente prejudicial à grande maioria da população brasileira que necessita ampliar suas oportunidades de trabalho, emprego e renda.

E quanto ao Maranhão, que agenda o Estado deve cumprir neste momento para garantir um desenvolvimento includente e sustentável para suas atuais e futuras gerações?

O maior desafio para o desenvolvimento do Maranhão é superar o atraso político e o descompromisso público de boa parte das elites que comandam o Estado. O poder político aqui tem características únicas.  Predomina a mais forte das oligarquias brasileiras, cujo enraizamento e fortalecimento vêm de décadas. Sua força é tamanha que a governabilidade nacional dela não pode prescindir. Nossa história é feita de negações e apropriações indébitas, em especial dos direitos humanos, de cidadania e do erário público. Por mais hábil e inteligente que seja a engenharia política oligárquica, é impossível garantir o desenvolvimento includente e sustentável para as atuais e futuras gerações nos marcos e na lógica desse sistema oligárquico. A saída passa por uma reforma radical e profunda da política estadual e dos métodos tradicionais utilizados pelos que dirigem o Estado. O segundo maior desafio maranhense é desenvolver suas várias economias. Somos um Estado no qual os municípios praticamente não têm economias próprias e estão resignados com essa condição. Dependem quase inteiramente das transferências da união e pouco fazem (seja por conveniência política, descompromisso, nível cultural ou incapacidade técnica) para romper esse círculo vicioso. O poder oligárquico incutiu na cabeça do maranhense que desenvolvimento só é possível com fartos estímulos aos grandes projetos nacionais e internacionais que aqui se instalam, principalmente em razão das vantagens infraestruturais, sobretudo viárias, portuárias e das benesses fiscais. Relegaram a um segundo plano, e até agem com desprezo, quando o assunto é o desenvolvimento endógeno das forças produtivas locais e municipais. O preço pago por esse olhar estrábico é um PIB per capita dos menores e dos mais baixos do país. Esse poder jamais conseguiu promover o desenvolvimento equitativo e sustentável. Pelo contrário. Reforçou a tendência histórica de crescimento econômico concentrado e centralizado. A saída passa pelo fortalecimento da democracia e dos governos locais e pela dinamização das economias dos territórios municipais, numa perspectiva de evolução das cadeias produtivas e da infra-estrutura básica, no que gerarão oportunidades para o desenvolvimento das micro e pequenas empresas sediadas ali. O Maranhão, no século XIX, chegou a ser uma das mais importantes províncias do Brasil, tendo sua capital como a 4ª mais importante, só perdendo para Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Por ter uma elite com mentalidade alienada, atrasada e sem projeto cultural próprio, acreditava que a saída estava no transplante da cultura metropolitana européia. É fácil compreender porque chegamos cedo à estagnação e à decadência. A efetividade de uma agenda estratégica para o desenvolvimento sustentável do Maranhão, de forma resumida, dependerá do investimento em uma nova cultura de mudança, prioritariamente voltada às gerações mais jovens; da desconstrução dos fundamentos da lógica articulante do poder oligárquico tradicional; da reinvenção do planejamento público estatal, hoje incapaz de planejar o desenvolvimento sustentável por se manter atrelado aos interesses políticos imediatos do poder executivo; e da dinamização das economias endógenas, que pouco conseguem agregar valor aos seus produtos, vítimas que são da política ciclópica e equivocada de valorização extrema dos grandes projetos mínero-metalúrgicos e do agronegócio. Tão importantes quanto os grandes projetos do novo ciclo de investimentos, a começar pela futura Refinaria Premium, serão os projetos que elevem a capacidade de agregação de valores aos bens e serviços produzidos pela economia endógena, a começar pela dinamização das economias dos povoados, vilarejos e distritos.

Na sua avaliação, como tem sido o aproveitamento do conhecimento técnico do economista nos debates, planejamento e formulação das políticas no país?

No plano nacional os economistas sempre tiveram um peso muito grande em matéria de estratégias para o desenvolvimento brasileiro, além de forte presença no planejamento e na gestão governamental. Predominam as correntes conservadoras e liberais, sempre vinculadas aos centros hegemônicos do capitalismo internacional. Produzimos também um pensamento econômico mais à esquerda e nacionalista que, em determinadas conjunturas, tiveram peso relativo. Além disso, o pensamento econômico brasileiro tem prestígio na América Latina e mesmo no mundo, graças a alguns centros de formação localizados principalmente no centro-sul brasileiro, com destaque para as instituições localizadas nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Onde o economista, enquanto profissional de formação humanística, encontraria melhor campo de realização profissional- no setor público, na área empresarial ou no chamado terceiro setor?

Tenho dúvidas se as nossas escolas de economia primam verdadeiramente pela formação humanística desses profissionais. Penso que em sua grande maioria constroem na cabeça dos formandos a idéia de que se trata de uma ciência exata. A permanência dessa perspectiva tem contribuído para a atual crise de identidade da carreira. Confunde-se ciência com ideologia e muitos cursos acabam se transformando em aparelhos ideológicos descontextualizados. Concordo com Fábio Comparato quando diz que a economia, como o direito e a política, é uma sabedoria de decisões. É uma tomada de decisões que requer sabedoria técnica, científica e vivência cultural. Minha experiência pessoal até agora foi no setor público e no terceiro setor. Ambos são fascinantes como campos de atuação do economista. Para se sair bem em qualquer das três áreas é preciso competência, criatividade e estar aberto aos desafios de uma sociedade em mutação. E ficar de olho nas oportunidades que surgirem.

E a formação dos novos economistas têm acompanhado as exigências da realidade brasileira?

Ultimamente não tenho acompanhado de perto essa questão. Durante o longo período em que estive inserido, eram poucos os centros de formação de economistas que focavam seus conteúdos curriculares e programas correspondentes na realidade do país, das regiões e dos Estados. Em sua maioria os cursos estavam pautados em correntes teóricas, metodológicas e  de pensamento referidas aos países centrais do capitalismo hegemônico. Aqui está outro fator que explica a crise de identidade da carreira. Estudava-se muita teoria, fazia-se da cátedra um púlpito ideológico para veicular duvidosas verdades e quase nada de prático e experimental era vivenciado. O resultado de tudo isso era uma profissional de precária formação intelectual própria, com baixíssimos níveis de contato com a realidade onde estava inserido, além de sair quase despojado das ferramentas mínimas para o exercício profissional no mercado de trabalho. Pelo que tenho visto, acho que esse quadro não mudou muito, com as devidas exceções. Em nosso Estado percebo isso com muita nitidez. Claro que temos professores e professoras talentosos e competentes em bom número, todavia parece que não conseguem ultrapassar esse viés histórico. Ainda hoje muitos economistas explicam a realidade maranhense a partir de supostos “modelos” assépticos e acreditam numa bobagem metodológica chamada “ceteris paribus”, que explica os fenômenos econômicos isoladamente, sem considerar os efeitos dos outros fatores sociais.

Qual a sua recomendação aos jovens economistas para que possam ser bem sucedidos profissionalmente?

Colocar a ética acima dos interesses particulares e dos vínculos políticos e se colocar na sociedade como um cidadão comprometido com o bem comum do povo. O passo seguinte é não negligenciar jamais o seu aperfeiçoamento técnico, científico e cultural. Mediocridade não combina com o exercício da profissão de economista. Para isso é preciso se colocar como um eterno aprendiz.

Por fim, uma opinião sobre a importância do CORECON-MA.

Orgulho-me de ter sido um dos fundadores do Conselho. Uma fase de minha vida foi dedicada a este movimento, do qual tenho gratíssimas recordações. Na gestão de Raimundo Rocha Junior recebi inclusive o honroso título de Economista do Ano. Reconheço em Dilma Pinheiro uma dirigente de valor, ativa e realizadora. Cursino e seu grupo são quadros importantes. Reúne assim todas as condições intelectuais e materiais para contribuir no enfrentamento da encruzilhada histórica em que o Maranhão se encontra. O Conselho será mais importante ainda se se fizer mais presente no enfrentamento dos desafios do desenvolvimento econômico  maranhense. O Corecon, juntamente com as escolas de economia, têm o dever ético, cívico e intelectual de fomentar uma cosmovisão dos problemas maranhenses que supere o lugar das explicações consagradas, plenamente utilizadas pelas camadas dirigentes do Estado ontem e hoje, ou mesmo “amanhã” (se cruzarmos os braços), em favor da continuidade dos seus projetos de dominação política. E preciso confrontar a razão patrimonialista que emana dessas camadas e que mantêm o Maranhão prisioneiro de uma ficção histórica e política. Se não nos unirmos nessa direção vamos continuar assistindo de camarote a ópera bufa que nos ilude por décadas. Agindo assim poderemos contribuir para tornar mais efetivo o controle social sobre o Estado e suas políticas públicas. Era essa a visão que tínhamos, há trinta anos atrás, nós do movimento de renovação dos economistas, para justificarmos a existência de um Conselho de Economia para o Maranhão. Visão esta que certamente não foi esquecido pelos atuais dirigentes do Conselho.

 

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