TEMPOS DE INTERACT

por Raimundo Palhano

 

Entre 1965 e 1966 participei ativamente do movimento interactiano no Maranhão e em todo Distrito 449, então o maior distrito rotário do mundo, pois abrangia a Região Amazônica e os Estados do Maranhão, Piauí e Ceará. Fui, inicialmente, presidente do Interact Club do Colégio Maranhense, dos Irmãos Maristas, vinculado ao Rotary Club da Praia Grande, o que me levou a ser eleito, na I Conferência Distrital de Interact Clubs, o primeiro Governador Distrital de Interact do D-449, e transformar-me, por esse motivo, no segundo Governador de Interact do país ( o primeiro foi o Presidente do Interact de Londrina, no Paraná ), integrar o grupo dos quatro primeiros Governadores de Interact da América do Sul e a pertencer, juntamente com mais vinte e oito jovens, de doze países, incluindo o Brasil, ao Conselho Mundial de Governadores de Interact.

Lideravam as ações rotárias naquele tempo e apoiavam o movimento interactiano nomes singulares como Luiz Rego, Ronald Carvalho, Ruy Abreu, Antonio Moraes Correia, José da Costa Oliveira, Luiz Augusto Rego, Sebastião Caracas, Carlos Vasconcelos, Antonio Hadad e muitos outros, destacando-se, entre todos, o empresário Almyr Moraes Correia, sem dúvida, um dos mais lúcidos e exponenciais empreendedores de sua geração e  verdadeiro devoto à causa da juventude.

Ao que estou informado, a criação de Interact Clubes pelo Rotary International ocorreu em 1962. Em 1966, quando me desligo do movimento para concluir o Científico no Rio de Janeiro, existiam 1.500 clubes e 23.000 interactianos espalhados em cinqüenta países. Olhando o passado, numa fase em que a internet ainda era ficção, chama a atenção a existência, à época, de uma verdadeira rede de comunicação entre os interactianos dos vários continentes, talvez explicável pelo prazer que tínhamos em estabelecer relações de amizade e propagar o que cada um estava fazendo para o bem de sua comunidade, em especial pelos pobres e despossuídos. Não estou seguro, por outro lado, se o Interact Club do Colégio Maranhense, provavelmente criado em 1965, foi o primeiro do Maranhão ou se tal prerrogativa pertence ao Interact Club do ex- Colégio São Luís ou mesmo à antiga Escola Técnica Federal. Todavia, o Interact dos Maristas, sediado no Colégio mais respeitado da Capital e celeiro de educadores renomados, como Raimundo Medeiros Lobato, Ivo Anselmo Hohn, Kalil Mohana, entre tantos outros, teve a sorte de assumir a liderança do movimento no Maranhão e em todo o Distrito graças, principalmente, aos sonhos de meninos inigualáveis, como Miguel Damous, Miécio Jorge Filho, Avelino Farias, João Ferreira da Silva Filho, Adalberto Gonçalves, Luís Raimundo Leal Mesquita, Carlos Nina, Manoel Farias, Carlos Tadeu Palácio, João Martins Boueres, Fernando Caldas, Francisco Siqueira Junior, e tantos outros, que viriam a se tornar, mais tarde, em atores sociais e homens públicos de plena visibilidade no Maranhão e alguns até mesmo no país.

Com cerca de dezoito anos, tendo tido o privilégio de experimentar os dourados anos da década dos cinqüenta, mesmo sem entender muito tudo aquilo,  vivia, no ano de 1966, minha primeira culminância: – Governador do Interact, Presidente do Grêmio Cultural Coelho Neto, do Colégio Marista, Vencedor do Prêmio Literário-Estudantil da Editora “El Ateneo” e autor de uma peça teatral – “Três Mortes Diferentes” – encenada no Auditório Marcelino Champagnat… Olhando o passado, mais uma vez, não tenho dúvida que, dentre todas aquelas “glórias”, a experiência interactiana foi uma das melhores. Ela, mais que qualquer outra, me revelava o mundo e me descortinava horizontes. Como esquecer as coisas boas que inventávamos e fazíamos? Os discursos grandiloquentes, as promessas de mudar a sociedade, os atos de heroísmo e de solidariedade humana? Como esquecer a emoção de ver acontecimentos nossos impressos em idiomas como o inglês, o francês ou o espanhol e de saber que, em outros países e continentes, existiam jovens engajados no movimento e interessados em intercambiar e trocar experiências em prol do companheirismo internacional e que acreditavam, como nós interactianos maranhenses, no ideal de servir ao próximo e à comunidade como princípios basilares? Como é prazeroso recordar as muitas viagens que fizemos a cidades como Caxias, Teresina, Parnaíba, Sobral, Fortaleza e Belém, por exemplo, para fundar novos Interact, apoiar outros, realizar eventos, como a II Conferência Distrital de Belém, em 1966, quando me despedi da Governadoria, recebendo generosos aplausos de todos? Como não lembrar dos programas radiofônicos semanais que tínhamos, o primeiro na Rádio Difusora, às 17:30 horas, cujo ponto culminante era a “Crônica do Estudante Moderno”, escrita e apresentada por Manoel Farias, ou o outro, na Rádio Educadora, também semanal, viabilizado pelo sacerdote-rotariano Monsenhor Ladislau Papp, intitulado “Interação”, cujo cronista principal era o aguerrido Carlos Sebastião da Silva Nina?

Ao concluir esse pequeno exercício de memória não hesito em afirmar que o Interact foi uma das minhas primeiras escolas de vivências humanas e de formação política, e, com certeza, de todos os companheiros de agremiação, na medida em que sua preocupação maior era deixar impregnado em nosso caráter uma marca ética, traço este que se deveu, sobretudo, à influência intelectual exercida por Almyr Moraes Correia como inspirador, apoiador e ideólogo do interactianismo em nosso meio. Ali aprendíamos e exercitávamos o ideal de servir à comunidade, a interagir, pois “interact” quer dizer interação, o companheirismo internacional, o significado da participação social, o trabalho pela paz mundial e, sobretudo, a defesa da liberdade. O mais importante de tudo, e contraditório também, é que era um dos únicos movimentos “consentidos”, abertos aos jovens, pois se vivia em pleno processo de consolidação de um regime político ditatorial em que, por exemplo,  o movimento estudantil e seus órgãos de representação cada vez mais só podiam agir na clandestinidade. Entendo que, no que fazíamos, mesmo consentidamente, havia algo renascendo das cinzas, ou mesmo do próprio fogo em chamas, a anunciar que a liberdade não pode morrer, nunca. No Interact, no jornal “Força Estudantil” do nosso Grêmio escolar, na peça “Três Mortes Diferentes”, no prêmio literário da “El Ateneo”, nas crônicas das rádios e na nossa ação cotidiana, em tempos de chumbo como eram aqueles, para todos nós daquela geração, ainda meninos calçudos, havia uma expressão de Paul Claudel que nos guiava sempre: “a juventude não é para o prazer, mas para o heroísmo”. Bons tempos, aqueles!

 

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