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SOBRE CÉLIA LINHARES

(Entrevista concedida em 2007 à Adrianne Ogêda Guedes, com vistas à sua tese de doutorado em Educação pela Universidade Federal Fluminense)

Caro Professor Raimundo Palhano,

Me chamo Adrianne Ogêda Guedes, doutoranda da Universidade Federal Fluminense.

Estou desenvolvendo uma tese de doutorado, na Universidade Federal Fluminense orientada pela professora Iduina Chaves, sobre a influência e importância da professora Célia Linhares no pensamento pedagógico brasileiro.

Para isso estou entrevistando pessoas que, de algum modo, estiveram próximas a ela em diferentes momentos de sua trajetória. A própria professora Célia foi quem indicou seu nome.

Essa entrevista tem como objetivo apreender diferentes olhares sobre o ideário pedagógico da Professora Célia, bem como buscar elementos históricos presentes em suas experiências profissionais que reflitam sua contribuição e participação em distintas esferas da Educação Brasileira.

Nesse sentido, peço sua contribuição comentando as questões abaixo;

1)      Em que contexto e época conheceu a professora Célia Linhares?

Foi no ano de 1984, quando iniciei o mestrado em História, na UFF, no Rio de Janeiro, por intermédio de minha esposa, colega de Célia na profissão e também de Universidade Federal do Maranhão, isto desde a fase pré-ditatorial. O regime autoritário, poucos anos após sua implantação, a levará e ao seu marido, o genial José Ribamar Linhares, a buscarem asilo voluntário fora de São Luís, precisamente no Rio, temerosos de perseguições políticas dos militares no poder, em função de suas atuações militantes nos movimentos eclesiais de base liderados pela Igreja Católica.

Queimados os navios ludovicenses, Célia e seu companheiro começam do marco zero uma nova jornada, onde irão, com muita tenacidade e ternura, lapidar os diamantes que traziam na alma, investindo em suas formações acadêmicas e profissionais, no Brasil e no exterior; ele tornando-se um executivo de nível internacional e ela a intelectual e pesquisadora exponencial que tanto admiramos.

2)      Comente sobre as experiências profissionais que vivenciou com ela, destacando de que forma ela contribuiu nas mesmas e relatando alguma passagem especialmente marcante que tenha vivido com ela.

Vivenciei com Célia Linhares pelo menos três importantes experiências profissionais. A primeira e mais profunda ocorreu entre os anos 1997 e meados de 1999, quando ocupei o cargo de Secretário de Educação do município de Caxias, no Maranhão e Célia concebeu e coordenou o projeto político-pedagógico da educação municipal. A segunda, ocorrida no início dos anos 2000, relaciona-se ao desenvolvimento do projeto Escola Compartilhada, no município de Coelho Neto, também no Maranhão e a terceira experiência, esta mais recente, em São Luís, capital do estado, onde Célia implantou e desenvolveu o projeto Escola Sonhos do Futuro.

Em todas elas a contribuição de Célia foi marcante. Apesar dos títulos e da enorme bagagem intelectual e cultural, jamais fez desses atributos mecanismos de superioridade e arrogância; pelo contrário, soube conquistar os grupos locais, geralmente desconfiados e inseguros, levando-os rapidamente a atitudes de autodeterminação em seus trabalhos pedagógicos.

A experiência de um projeto instituinte de educação em Caxias, o da Escola Balaia, concebido e coordenado por ela, produziu naquela comunidade um impacto cultural muito forte, tendo ultrapassado as fronteiras do município e chegado mesmo a outras regiões, tanto pelo seu caráter inovador, como pelas mudanças que produziu em um sistema de ensino municipal que se caracterizava pela mesmice e pela falta de perspectivas.

A experiência de Coelho Neto inscreve-se como desdobramento da experiência anterior, interrompida prematuramente em decorrência de crises políticas locais. Ali Célia liderou um processo ambicioso de institucionalização de um sistema de ensino local, que objetivava tornar-se um ente federativo autônomo em termos de gestão administrativa e pedagógica. O trabalho de Célia foi, sobretudo o de conceber e instituir um programa de formação de professores que levasse aquela comunidade educativa a assumir plenamente a educação municipal. Embora também tenha sido interrompido antes da hora, novamente por conflitos de poder e de temor político, a experiência da Escola Compartilhada repercutiu muito bem, pois sairiam do meio daqueles  professores capacitados pelo projeto os novos dirigentes da educação municipal e que até hoje se mantêm articulados.

Não tive o privilégio de acompanhar de perto a experiência da Escola Sonhos do Futuro, em São Luís, pois não cheguei a integrar a equipe. Todavia sempre estive atento aos movimentos do projeto e compartilhava com Célia Linhares as minhas observações e recolhia dela os comentários e juízos sobre os enormes desafios que enfrentou e soube superar com maestria. Durou a experiência o tempo da sua contratação pela Prefeitura de São Luís, mas, como as demais, deixou marcas consistentes no professorado da capital, sobretudo no sentido de torná-los protagonistas ativos em suas atividades pedagógicas.

Devo dizer, por fim, em consideração à sua pergunta, que é impossível tentar identificar apenas uma passagem marcante da convivência com Célia. Com Célia Linhares não há passagens, há viagens.

3)      O que você destacaria com as idéias mais fortes no pensamento pedagógico de Célia Linhares?

O pensamento pedagógico de Célia Linhares é um composto que envolve arquitetura e fundamentos. Na dimensão arquitetural destaco o engenho e a arte com que constrói, com que elabora sua escritura e o seu discurso sonoro, o áudio de sua fala.

Há uma sensação de que a cabeça da autora não descansa nunca, que se entrega de corpo e alma à paixão pelo ato criador. Quando escreve ou quando discursa Célia encanta porque compartilha com os outros uma nova estética do ser, incomum, invulgar, colhida e recolhida a todo o momento dos materiais da vida, que suas mãos de artista selecionam e ressignificam como poucos.

O outro composto, o que envolve a dimensão filosófica, teórica e metodológica, emerge de modo sólido, sem superficialidades e concessões, vindo associado a uma cultura humanista ampla e sintetizadora ao mesmo tempo, que dão aos seus escritos o rigor da ciência e a singularidade da beleza literária.

Sua cultura acadêmica é vastíssima, fato que a torna conhecedora dos clássicos do pensamento universal e do pensamento pedagógico, sejam nacionais ou estrangeiros. Mergulha fundo em autores como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Jean Piaget, Jean Jacques Rousseau, Emilia Ferreiro, Vygostsky, Antônio Nóvoa, Althusser, Durkheim, Mirkhail Barkthin, Skinner, Bourdieu e Passeron, entre tantos outros da literatura pedagógica e filosófica.

Segundo o que tem revelado ultimamente, os autores que mais a têm ajudado nos estudos sobre a realidade são Walter Benjamim, Paulo Freire e Michel Foucault, além de outros como Humberto Maturana, Boaventura Santos, Marie-Christine Josso, Jorge Larrosa e Basarab Nicolescu, sem deixar de mencionar seu interesse recente pelo aprofundamento das idéias desafiadoras de Giorgio Agambem.

Não há dúvida que a idéia-força do pensamento celiano é a construção dos sujeitos educacionais, sobretudo dos ingredientes ligados à formação dos professores. A pedagogia de Célia está materializada no professor como um sujeito consciente e ativo, capaz de se reinventar, de reinventar a escola e o mundo da educação. Seu ponto de partida é a crença de que sem a participação decisiva do professor não haverá a menor possibilidade de transformações qualitativas na educação, sobretudo na educação escolar.

Em função desse enfoque sintetizador, Célia vem avançando na construção de um método de formação de professores baseado no emprego das memórias e narrações compartilhadas, em comunidades escolares as mais diversas, onde os pólos de narrações e memórias criados alavancam processos formativos inovadores, cuja característica fundamental é o estímulo à construção de projetos pedagógicos próprios àquelas comunidades de aprendizagem, o que a autora denomina de projetos instituintes.

4)      Como você vê a influência de sua produção e ação na Educação Brasileira?

Célia Linhares é completa porque harmoniza a palavra e a ação, materializada, esta última, sobretudo em sua produção intelectual e científica, fato cada vez mais raro hoje em dia no campo pedagógico. Em Célia palavra e ação são expressões criadoras, instigantes e provocativas. É impossível ler Célia sem ativar o pensamento.

Se me fosse pedida a lista dos educadores e educadoras mais influentes, produtivos e criadores do Brasil contemporâneo não hesitaria em incluir, numa posição destacada, o nome de Célia. Iniciativas como esta, sob sua responsabilidade, de focar a obra da autora, chegam na hora certa, pois a academia universitária brasileira, em especial a do Rio de Janeiro, precisa resgatar as dívidas que possui em relação à obra de Célia Linhares.

Por outro lado, são cada vez maiores os lançamentos de novos títulos no campo da educação, sobretudo nos grandes mercados editoriais.

No entanto, o que se vê, com raríssimas exceções são certas redundâncias temáticas e variações às vezes pouco ricas sobre questões educacionais que estão em moda e que em muitos casos passam apenas tangencialmente sobre os problemas reais da política educacional brasileira.

Ao lado disso, percebe-se um vazio muito grande de produções realmente inovadoras. A era dos grandes mestres e das obras fundantes parece perdida no tempo e a produção atual não consegue reeditá-la.

É tendo esse contexto de aridez como pano de fundo que situo a importância solar da contribuição intelectual de Célia Linhares, reveladora do alto poder regenerador do pensamento pedagógico brasileiro.

Apesar de todos os méritos que reúne em suas obras, em seus trabalhos e na extensa folha de serviços prestados à educação brasileira, seja nas universidades e na escola públicas, julgo, todavia que a sua influência deveria ser muito maior do que tem sido.

Torço para que trabalhos como este seu possam ajudar mais o Brasil a conhecer a obra celiana.

5)      Você já teve a oportunidade de ler alguma de suas obras? Qual? Comente algum aspecto que chamou sua atenção na obra referida.

A obra intelectual e pedagógica de Célia Linhares chama a atenção, sobretudo por dois aspectos: pelo conteúdo filosófico de elevado padrão cultural e pela beleza literária, que transformam seus textos em verdadeiros poemas pedagógicos, sem esquecer o tanto que é volumosa, denotando tratar-se de uma das mais fecundas educadoras deste país.

Detentora de uma formação acadêmica invejável, construída nas melhores universidades brasileiras, latino-americanas, norte-americanas e européias, com atuação destacada na vida acadêmica nacional e internacional, como docente e pesquisadora renomada, sua produção intelectual é vastíssima, contabilizando quase 60 obras, entre livros, direção de coleções, artigos em revistas nacionais e internacionais, conferências publicadas em anais de congressos nacionais e internacionais, além de ensaios, conferências, palestras e consultorias técnicas em vários estados brasileiros.

Merece destaque em sua trajetória o fato de ter participado da fundação das principais associações científicas da área educacional, como ANPED, ANFOPE e AELAC, bem como sua militância política, doce e firme ao mesmo tempo, em favor da redemocratização do país e em defesa da escola pública autônoma, competente e de qualidade para todos.

Orgulho-me de ter em minha biblioteca pessoal boa parte da obra de Célia Linhares e ter sido ao longo dos anos e continuar sendo um apreciador e divulgador de sua contribuição intelectual e profissional. Sempre que necessito recorro aos seus livros para aprender e meditar sobre questões da educação brasileira. Não posso negar que tenho um carinho especial pelo livro Escola Balaia, escrito por ela e publicado em 1999, onde narra de forma lúcida e poética a sua experiência em Caxias, onde fui dirigente municipal de educação. A escola e os seus Profissionais, publicada em 1997 é outra obra de referência para mim. As obras mais recentes as acompanho de perto.

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ENTREVISTA

Entrevista com Raimundo Palhano para o Jornal do Economista do Corecon-MA, respondida por e-mail em 31.01.2010.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Como economista, qual é a sua visão do Brasil de hoje?

Vejo o Brasil como um país dotado de enormes potencialidades para se tornar um líder regional e internacional nos próximos anos, já visíveis hoje, graças ao carisma pessoal do Presidente Lula e aos acertos das políticas macroeconômica e de desenvolvimento social. Claro que o país reúne um volume grande de desafios, principalmente relacionados ao enfrentamento da pobreza, do atraso político, da crise institucional e das questões das desigualdades sociais.  A elite política que dirige o país, em sua grande maioria, alojada nos três poderes, está muito aquém das necessidades e expectativas da nação. As nossas instituições públicas e governamentais não funcionam corretamente, e muitas estão defasadas, decadentes e até mesmo apodrecidas. O futuro do país depende da superação desses obstáculos estruturais. Apesar das crises internas e dos erros da política e dos políticos, que substituíram a busca do bem comum do povo pelo bem “incomum” de suas riquezas patrimoniais, julgo que o povo brasileiro vencerá essa batalha, sobretudo porque não há mais hegemonia cultural e política no mundo em que vivemos. Somos claramente uma cultura peculiar, vista inclusive, por setores da cultura européia, como portadora de um mundo alternativo, humanizado e criativo. Por sermos um povo experimental e a nossa cultura híbrida e caleidoscópica, isso contará muito na nova ordem mundial que está sendo gestada.

Podemos acreditar que as estratégias e políticas econômicas adotadas nos últimos anos vão alavancar de fato o desenvolvimento do país, com a superação dos indicadores negativos?

Precisam continuar evoluindo para melhor. A estratégia para isso resume-se em combinar crescimento econômico geral com a dinamização das economias regionais e locais, sendo, ao mesmo tempo, capazes de assegurar uma maior equidade social. O traço mais característico do desenvolvimento econômico brasileiro é a produção de assimetrias no tecido social. A economia cresce e os benefícios não chegam ou não fortalecem a qualidade de vida de grandes parcelas da população. Só agora temos uma política social que está influindo na melhoria da distribuição de renda para os pobres, resumida nos efeitos do programa Bolsa Família. Para superarmos os indicadores negativos do país precisamos desenvolver a Amazônia, o Nordeste, as periferias dos centros urbanos. Ao lado de políticas públicas verdadeiramente eficazes, sobretudo na criação de infra-estruturas básicas, econômicas e sociais, lastreadas em uma política educacional de qualidade efetiva para as camadas populares de todas as regiões do território nacional. Faltam-nos, além disso, estratégias inteligentes de desenvolvimento de médio e longo prazo, que nos levem a níveis cada vez maiores de equilíbrio e sustentabilidade econômica e política. Há muita fragilidade no planejamento estratégico estatal, sobretudo em termos de estratégias para o país assumir a condição de “player” internacional. Enquanto não superarmos essas limitações, a governança se fará misturando-se elementos do paroquialismo provinciano com elementos de uma modernização de fachada, benéfica a bem poucos e altamente prejudicial à grande maioria da população brasileira que necessita ampliar suas oportunidades de trabalho, emprego e renda.

E quanto ao Maranhão, que agenda o Estado deve cumprir neste momento para garantir um desenvolvimento includente e sustentável para suas atuais e futuras gerações?

O maior desafio para o desenvolvimento do Maranhão é superar o atraso político e o descompromisso público de boa parte das elites que comandam o Estado. O poder político aqui tem características únicas.  Predomina a mais forte das oligarquias brasileiras, cujo enraizamento e fortalecimento vêm de décadas. Sua força é tamanha que a governabilidade nacional dela não pode prescindir. Nossa história é feita de negações e apropriações indébitas, em especial dos direitos humanos, de cidadania e do erário público. Por mais hábil e inteligente que seja a engenharia política oligárquica, é impossível garantir o desenvolvimento includente e sustentável para as atuais e futuras gerações nos marcos e na lógica desse sistema oligárquico. A saída passa por uma reforma radical e profunda da política estadual e dos métodos tradicionais utilizados pelos que dirigem o Estado. O segundo maior desafio maranhense é desenvolver suas várias economias. Somos um Estado no qual os municípios praticamente não têm economias próprias e estão resignados com essa condição. Dependem quase inteiramente das transferências da união e pouco fazem (seja por conveniência política, descompromisso, nível cultural ou incapacidade técnica) para romper esse círculo vicioso. O poder oligárquico incutiu na cabeça do maranhense que desenvolvimento só é possível com fartos estímulos aos grandes projetos nacionais e internacionais que aqui se instalam, principalmente em razão das vantagens infraestruturais, sobretudo viárias, portuárias e das benesses fiscais. Relegaram a um segundo plano, e até agem com desprezo, quando o assunto é o desenvolvimento endógeno das forças produtivas locais e municipais. O preço pago por esse olhar estrábico é um PIB per capita dos menores e dos mais baixos do país. Esse poder jamais conseguiu promover o desenvolvimento equitativo e sustentável. Pelo contrário. Reforçou a tendência histórica de crescimento econômico concentrado e centralizado. A saída passa pelo fortalecimento da democracia e dos governos locais e pela dinamização das economias dos territórios municipais, numa perspectiva de evolução das cadeias produtivas e da infra-estrutura básica, no que gerarão oportunidades para o desenvolvimento das micro e pequenas empresas sediadas ali. O Maranhão, no século XIX, chegou a ser uma das mais importantes províncias do Brasil, tendo sua capital como a 4ª mais importante, só perdendo para Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Por ter uma elite com mentalidade alienada, atrasada e sem projeto cultural próprio, acreditava que a saída estava no transplante da cultura metropolitana européia. É fácil compreender porque chegamos cedo à estagnação e à decadência. A efetividade de uma agenda estratégica para o desenvolvimento sustentável do Maranhão, de forma resumida, dependerá do investimento em uma nova cultura de mudança, prioritariamente voltada às gerações mais jovens; da desconstrução dos fundamentos da lógica articulante do poder oligárquico tradicional; da reinvenção do planejamento público estatal, hoje incapaz de planejar o desenvolvimento sustentável por se manter atrelado aos interesses políticos imediatos do poder executivo; e da dinamização das economias endógenas, que pouco conseguem agregar valor aos seus produtos, vítimas que são da política ciclópica e equivocada de valorização extrema dos grandes projetos mínero-metalúrgicos e do agronegócio. Tão importantes quanto os grandes projetos do novo ciclo de investimentos, a começar pela futura Refinaria Premium, serão os projetos que elevem a capacidade de agregação de valores aos bens e serviços produzidos pela economia endógena, a começar pela dinamização das economias dos povoados, vilarejos e distritos.

Na sua avaliação, como tem sido o aproveitamento do conhecimento técnico do economista nos debates, planejamento e formulação das políticas no país?

No plano nacional os economistas sempre tiveram um peso muito grande em matéria de estratégias para o desenvolvimento brasileiro, além de forte presença no planejamento e na gestão governamental. Predominam as correntes conservadoras e liberais, sempre vinculadas aos centros hegemônicos do capitalismo internacional. Produzimos também um pensamento econômico mais à esquerda e nacionalista que, em determinadas conjunturas, tiveram peso relativo. Além disso, o pensamento econômico brasileiro tem prestígio na América Latina e mesmo no mundo, graças a alguns centros de formação localizados principalmente no centro-sul brasileiro, com destaque para as instituições localizadas nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Onde o economista, enquanto profissional de formação humanística, encontraria melhor campo de realização profissional- no setor público, na área empresarial ou no chamado terceiro setor?

Tenho dúvidas se as nossas escolas de economia primam verdadeiramente pela formação humanística desses profissionais. Penso que em sua grande maioria constroem na cabeça dos formandos a idéia de que se trata de uma ciência exata. A permanência dessa perspectiva tem contribuído para a atual crise de identidade da carreira. Confunde-se ciência com ideologia e muitos cursos acabam se transformando em aparelhos ideológicos descontextualizados. Concordo com Fábio Comparato quando diz que a economia, como o direito e a política, é uma sabedoria de decisões. É uma tomada de decisões que requer sabedoria técnica, científica e vivência cultural. Minha experiência pessoal até agora foi no setor público e no terceiro setor. Ambos são fascinantes como campos de atuação do economista. Para se sair bem em qualquer das três áreas é preciso competência, criatividade e estar aberto aos desafios de uma sociedade em mutação. E ficar de olho nas oportunidades que surgirem.

E a formação dos novos economistas têm acompanhado as exigências da realidade brasileira?

Ultimamente não tenho acompanhado de perto essa questão. Durante o longo período em que estive inserido, eram poucos os centros de formação de economistas que focavam seus conteúdos curriculares e programas correspondentes na realidade do país, das regiões e dos Estados. Em sua maioria os cursos estavam pautados em correntes teóricas, metodológicas e  de pensamento referidas aos países centrais do capitalismo hegemônico. Aqui está outro fator que explica a crise de identidade da carreira. Estudava-se muita teoria, fazia-se da cátedra um púlpito ideológico para veicular duvidosas verdades e quase nada de prático e experimental era vivenciado. O resultado de tudo isso era uma profissional de precária formação intelectual própria, com baixíssimos níveis de contato com a realidade onde estava inserido, além de sair quase despojado das ferramentas mínimas para o exercício profissional no mercado de trabalho. Pelo que tenho visto, acho que esse quadro não mudou muito, com as devidas exceções. Em nosso Estado percebo isso com muita nitidez. Claro que temos professores e professoras talentosos e competentes em bom número, todavia parece que não conseguem ultrapassar esse viés histórico. Ainda hoje muitos economistas explicam a realidade maranhense a partir de supostos “modelos” assépticos e acreditam numa bobagem metodológica chamada “ceteris paribus”, que explica os fenômenos econômicos isoladamente, sem considerar os efeitos dos outros fatores sociais.

Qual a sua recomendação aos jovens economistas para que possam ser bem sucedidos profissionalmente?

Colocar a ética acima dos interesses particulares e dos vínculos políticos e se colocar na sociedade como um cidadão comprometido com o bem comum do povo. O passo seguinte é não negligenciar jamais o seu aperfeiçoamento técnico, científico e cultural. Mediocridade não combina com o exercício da profissão de economista. Para isso é preciso se colocar como um eterno aprendiz.

Por fim, uma opinião sobre a importância do CORECON-MA.

Orgulho-me de ter sido um dos fundadores do Conselho. Uma fase de minha vida foi dedicada a este movimento, do qual tenho gratíssimas recordações. Na gestão de Raimundo Rocha Junior recebi inclusive o honroso título de Economista do Ano. Reconheço em Dilma Pinheiro uma dirigente de valor, ativa e realizadora. Cursino e seu grupo são quadros importantes. Reúne assim todas as condições intelectuais e materiais para contribuir no enfrentamento da encruzilhada histórica em que o Maranhão se encontra. O Conselho será mais importante ainda se se fizer mais presente no enfrentamento dos desafios do desenvolvimento econômico  maranhense. O Corecon, juntamente com as escolas de economia, têm o dever ético, cívico e intelectual de fomentar uma cosmovisão dos problemas maranhenses que supere o lugar das explicações consagradas, plenamente utilizadas pelas camadas dirigentes do Estado ontem e hoje, ou mesmo “amanhã” (se cruzarmos os braços), em favor da continuidade dos seus projetos de dominação política. E preciso confrontar a razão patrimonialista que emana dessas camadas e que mantêm o Maranhão prisioneiro de uma ficção histórica e política. Se não nos unirmos nessa direção vamos continuar assistindo de camarote a ópera bufa que nos ilude por décadas. Agindo assim poderemos contribuir para tornar mais efetivo o controle social sobre o Estado e suas políticas públicas. Era essa a visão que tínhamos, há trinta anos atrás, nós do movimento de renovação dos economistas, para justificarmos a existência de um Conselho de Economia para o Maranhão. Visão esta que certamente não foi esquecido pelos atuais dirigentes do Conselho.