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ESSENCIAL

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 3)

O leito da terra é o lugar essencial.
É lá que está a perfeição das coisas.
Em um lugar perdido do centro da terra,
de acesso difícil,
entre rochas ásperas e duras.

É lá que se encontra a pureza dos seres.
É lá que habitarei,
protegido dos mísseis,
das guerras hediondas,
da hecatombe.
Do próximo apocalipse.
É lá,
nesse lugar desconfortável,
perdido,
do centro da terra que me rencontrarei.
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O SOPRO

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 2)

O vento caminha forte,
buscando suavisar tempestades impacientes,
soprando velas de aniversário
e nenhuma pedra se movendo,
e nenhum osso se mexendo,
só as células vertebradas do ar.
Células do ar que apenas vi de passagem,
formando esqueletos peculiares,
uma outra humanidade,
entre lembranças e esperanças,
passadas a limpo por quase nada.
Como se fosse possível
estimar o valor de pedras se movendo,
ou do vento se esforçando,
persistindo em suavisar minhas noites.

RESISTÊNCIA

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 6)

Há uma tristeza no ar,
uma dureza, aspereza, no ar.
Muita gente conformada com os disformes da vida.
O momento sem movimento,
sem nada nas veias escarlates,
nessa sinfonia sepultada.
Haverá a memória da história
e daqueles que te ouviram e amaram?
Teus brados de alerta. Vermelhos. Inês.
Em que lugar da terra ainda consegues dormir?

VIDAS

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 5)

Quase onze horas de mais um domingo.
Da janela do cômodo vejo um conjunto de casas,
uma ciranda de telhados,
que parecem muito unidos e calmos. Apesar do sol intenso.
Mais além dos telhados vislumbro a linha das águas do
Bacanga,
que de longe soam paradas,
mas que,
na verdade,
estão deslizando em correnteza,
indo com muita pressa.
A despeito do silêncio, há vida.
Há vida.
O sol começa a brilhar mais.
Noto que há muita gente na rua. Ouço passadas e passados.
O vento pousa silenciosamente sobre as árvores, lá fora.
Ouço também o latido dos cães,
que não perturbam alguns pombos, que se beijam no telhado.
As nuvens do alto parecem observar, em silêncio, essas vidas.
Eu tento, antes de fechar a janela .

INTROSPECÇÃO

Raimundo Palhano
(relatório de viagem, 1)


Em volta tudo permanece sombrio,
amputação de meu verbo,
o verso que não se emancipa,
no artificial mundo parido,
mundo criado,
na introspecção avulsa dos outros,
redundantes seres gerados.
Em volta tudo continua triste:
o fígado,
a costela vermelha,
o coração,
a sombra arbórea,
como o meu pensamento que se perdeu.
Tento inutilmente encontrar a consciência de minha alma,
faço incursões perigosas em minhas próprias entranhas
e concluo que a viagem pode acabar sem meu consentimento.

EM SILÊNCIO

Raimundo Palhano
(relatório de viagem 4)

Fito as estradas reais e imaginárias.
O tempo transcorrido e os suores derramados.
Lembro sorrisos e lágrimas.
Amores e falta deles.
Solidões caudalosas como rios apressados.
Segredos guardados dentro de mim, inconfessáveis.
Angústias e tormentos.
Dúvidas atrozes.
Em silêncio fico sem saber o começo e o fim.
Por onde tudo acaba ou acabará.
Por onde começar a resolver os problemas do mundo,
antes de conhecer os meus próprios.
E minha alma se apavora
ante o volume da gota d’água,
os gases dos canos de descarga,
a decadência social que não consegue explicar.
Permaneço em silêncio,
exausto, atento, perplexo.
Cansado da viagem.
Sem saber se ainda há tempo para prosseguir.
Para onde?